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ENEM 2024: análise dos dados revela padrões de desigualdade persistentes

Alunos de escolas públicas representam 75% dos inscritos no ENEM, mas apenas 28% dos aprovados nas universidades federais mais concorridas. Os dados revelam que o sistema de cotas reduziu, mas não eliminou, a desigualdade de acesso.

Por Lucas Ferreira · 29 de junho de 2025
75%Inscritos de escola pública
28%Aprovados em cursos top
4,2MInscritos no ENEM 2024

O ENEM 2024 teve 4,2 milhões de inscritos, dos quais 75% declararam ter cursado o ensino médio integralmente em escola pública. Mas quando se analisa quem efetivamente ingressa nas carreiras mais concorridas das universidades federais — medicina, direito, engenharia e ciência da computação nas principais instituições —, a proporção de alunos de escola pública cai para 28%.

O dado é paradoxal: o sistema de cotas, que reserva 50% das vagas para alunos de escola pública, deveria garantir uma representação mínima. E garante — mas apenas nas vagas reservadas. Nas vagas de ampla concorrência, alunos de escola privada seguem dominantes.

O que os microdados revelam

A análise dos microdados do ENEM, disponíveis no portal do INEP, mostra que a diferença de desempenho entre alunos de escola pública e privada permanece significativa. A nota média em matemática dos alunos de escola privada foi 587 pontos; a dos alunos de escola pública, 498 — uma diferença de 89 pontos, ou quase um desvio padrão.

Mas os dados também revelam algo mais nuançado: quando se controla pela renda familiar, a diferença de desempenho entre escolas públicas e privadas se reduz substancialmente. Alunos de escola pública com renda familiar acima de 5 salários mínimos têm desempenho similar ao de alunos de escola privada com a mesma renda.

"O problema não é a escola pública em si — é a pobreza. Alunos pobres têm menos tempo para estudar, menos acesso a material de apoio, mais instabilidade em casa. A escola não consegue compensar tudo isso sozinha." — Lucas Ferreira

O impacto das cotas

Desde a implementação da Lei de Cotas em 2012, a proporção de estudantes de escola pública nas universidades federais passou de 37% para 54%. O avanço é real. Mas a distribuição por curso ainda é muito desigual: em medicina, a proporção de cotistas é de 38% — abaixo da meta de 50%. Em cursos menos concorridos, como licenciaturas, a proporção chega a 65%.

Pesquisadores da área argumentam que as cotas são necessárias, mas insuficientes. Sem políticas de permanência — bolsas, moradia estudantil, apoio psicológico —, muitos estudantes cotistas abandonam o curso antes de se formar.

O que os dados sugerem para políticas públicas

A análise dos dados aponta para uma conclusão incômoda: o gargalo não está apenas no acesso à universidade, mas muito antes — no ensino fundamental e médio. Municípios com melhor desempenho no IDEB têm, consistentemente, maior proporção de alunos de escola pública aprovados em cursos concorridos.

LF
Lucas Ferreira
// Editor de Dados
Lucas é cientista de dados e jornalista. Especializado em análise de microdados públicos, cobre educação, desigualdade e políticas sociais para o Que Surpreende Brasil.