Dados do DataSUS mostram que a taxa de mortalidade infantil no Norte e Nordeste é 2,8 vezes maior do que no Sul e Sudeste. A desigualdade persiste apesar de décadas de políticas públicas.
O Brasil reduziu sua taxa de mortalidade infantil de 47,1 por mil nascidos vivos em 1990 para 11,8 em 2024 — uma queda de 75% em três décadas. É um avanço inegável. Mas os números escondem uma realidade que persiste: dependendo de onde uma criança nasce no Brasil, suas chances de sobreviver ao primeiro ano de vida são radicalmente diferentes.
No Amazonas, a taxa é de 16,4 por mil nascidos vivos. Em Santa Catarina, é de 4,1. A diferença é de quatro vezes. E não se trata apenas de uma questão de desenvolvimento econômico — estados como o Pará e o Maranhão têm taxas muito acima do que seria esperado pelo seu PIB per capita.
O que mais chama atenção nos dados do DataSUS é a proporção de mortes por causas evitáveis. No Norte e Nordeste, mais de 60% das mortes infantis são classificadas como "evitáveis" — ou seja, poderiam ter sido prevenidas com acesso adequado a serviços de saúde. No Sul e Sudeste, essa proporção cai para 42%.
As principais causas evitáveis são: infecções respiratórias (que respondem a tratamento simples com antibióticos), diarreia (prevenível com saneamento e hidratação), e complicações perinatais (reduzíveis com pré-natal adequado).
"Quando uma criança morre de diarreia no Brasil em 2025, não estamos diante de uma tragédia inevitável. Estamos diante de uma falha do Estado." — Fernanda Costa
A correlação entre cobertura de saneamento básico e mortalidade infantil é uma das mais robustas da literatura epidemiológica. No Brasil, ela é visível nos dados: municípios com cobertura de esgotamento sanitário acima de 80% têm taxa de mortalidade infantil 3,2 vezes menor do que municípios com cobertura abaixo de 20%.
O Marco Legal do Saneamento, aprovado em 2020, estabeleceu metas ambiciosas para universalização do saneamento até 2033. Mas o ritmo de investimento atual está aquém do necessário para cumprir essas metas.
A análise dos dados municipais revela que os programas de saúde da família têm impacto significativo: municípios com cobertura de ESF acima de 90% têm taxa de mortalidade infantil 28% menor do que municípios similares com cobertura abaixo de 50%. O programa funciona — onde existe.