A cesta de consumo das famílias de baixa renda inclui proporcionalmente mais alimentos e energia — os itens que mais subiram em 2024. O resultado é uma inflação efetiva para os 20% mais pobres que foi 2,3 pontos percentuais acima do índice oficial.
O IPCA — Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo — é calculado com base numa cesta de consumo que representa a média das famílias com renda entre 1 e 40 salários mínimos. O problema é que a composição dessa cesta varia enormemente de acordo com a renda.
Famílias no primeiro quintil de renda (os 20% mais pobres) gastam, em média, 38% da sua renda com alimentação e 14% com energia elétrica e gás. Famílias no quinto quintil (os 20% mais ricos) gastam 16% com alimentação e 6% com energia. Quando esses itens sobem mais do que a média, o impacto sobre os pobres é proporcionalmente maior.
Uma análise dos microdados da POF (Pesquisa de Orçamentos Familiares) do IBGE, combinada com as variações de preços por categoria do IPCA, permite calcular uma "inflação personalizada" por faixa de renda. Os resultados são reveladores.
Em 2024, a alimentação no domicílio subiu 8,2% — bem acima do IPCA geral. A energia elétrica subiu 9,7%. O gás de cozinha, 11,3%. São exatamente os itens com maior peso no orçamento das famílias mais pobres.
"O IPCA é uma média. E como toda média, esconde as extremidades. Quando dizemos que a inflação foi de 5,53%, estamos dizendo que foi isso para uma família típica de classe média. Para quem está na base da pirâmide, foi muito mais." — Beatriz Alves, economista
O salário mínimo foi reajustado em 7,5% em 2025, acima do IPCA oficial. Mas para as famílias mais pobres, o reajuste real foi de apenas 5,2 pontos percentuais — porque a inflação que elas enfrentam é mais alta do que o índice usado para calcular o reajuste.
Em termos práticos, uma família que recebia R$ 1.412 em janeiro de 2024 e passou a receber R$ 1.518 em 2025 teve um ganho nominal de R$ 106. Mas o custo da sua cesta básica subiu mais do que isso.
Economistas do Ipea e da FGV têm defendido a criação de um índice de inflação específico para famílias de baixa renda — o que permitiria reajustes mais precisos do salário mínimo e dos benefícios sociais. A proposta existe há anos, mas nunca avançou no Congresso.
Uma alternativa mais simples seria usar o INPC (Índice Nacional de Preços ao Consumidor), que já é calculado para famílias com renda de 1 a 5 salários mínimos, como referência para reajustes de benefícios sociais. O INPC de 2024 foi de 6,8% — 1,27 ponto acima do IPCA.